A Ética da vingança

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Eu não gosto de Joaquim Barbosa. Queria muito gostar, mas falta ao ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) uma qualidade que aprecio muitíssimo: a leveza do perdão. Reconheço nele todas as grandezas que uma inteligência bem lapidada pelas letras pode trazer a um ser humano. Mas as virtudes intelectuais do magistrado floresceram em descompasso com um necessário aprimoramento espiritual.

Joaquim Barbosa fez e aconteceu no Supremo. Usou o exercício do cargo para destilar ódio contra quem o ofendeu direta ou indiretamente e colocou o ‘orgulho negro’ acima de um movimento maior de autoestima que todos nós brasileiros afrodescendentes precisamos encontrar. Eu queria gostar de Joaquim Barbosa e queria que ele fosse meu referencial, mas não deu. Paciência.

Há quem diga que à frente do Supremo ele foi o “paladino da Justiça”. Eu até acho que foi, mesmo. Só não sei se “paladino” é de fato um elogio. Ninguém é paladino e republicano, ao mesmo tempo. O paladinismo de Joaquim Barbosa contribuiu para ele que ampliasse o leque de inimizades. Entre os desafetos estavam os advogados e a ordem que os representa.

Fora da máxima Corte, Joaquim Barbosa voltou à sociedade civil. E como qualquer um de nós, está submetido às regras dessa semi-cidadania que construímos. Mas nem um semi-cidadão Joaquim Barbosa poderá ser. Qualquer advogado desconhecido teria mais facilidade para conseguir um registro na OAB do que Joaquim Barbosa. Em represália a seu comportamento, a ordem negou o pedido alegando falta de “idoneidade moral”. Não adianta, mesmo. O brasileiro odeia instituições, regras sólidas, tratamento igualitário. Nós gostamos é de estar no poder para massacrar quem já nos agrediu. O problema é que nossos desafetos também gostam. Então, às favas a isonomia, nosso sistema é bruto, aqui impera a vingança.

A volta do capitão retrospectiva

image Eu já sabia. Essa é uma das expressões mais canalhas a ser dita durante uma crise. Mas eu já sabia, mesmo. Desde o gol contra da Seleção Brasileira que inaugurou a Copa do Mundo a equipe de Felipão desenha sérios problemas emocionais. O auge da fragilidade dos atletas foi intimamente revelado na partida contra o Chile. O líder da equipe, Thiago Silva, não quis participar do momento decisivo e se recusou a bater pênalti. Comentei isso com um experiente técnico de outra modalidade esportiva e ele foi categórico: “se fosse meu atleta levaria pelas orelhas e obrigaria a bater o pênalti”. Felipão foi mais amoroso. Em vez disso, o técnico da Seleção usou sua velha artimanha de criar um inimigo e o time se indispôs com os jornalistas que há muito criticavam o descontrole emocional do time.
Muitas coisas estranhas foram tratadas com naturalidade. Jogo após jogo, os atletas eram liberados para longas saídas, rever a família, namoradas… Felipão chegou a alertar os brasileiros não consumirem álcool nas folgas. Como? Seria preciso o técnico alertar atletas de alto rendimento sobre isso?
O experiente ídolo Zico, um dos poucos atletas brasileiros que construíram biografia irrepreensível dentro e fora dos campos, alertou: os jogadores não estão bem, emocionalmente. A coisa estava tão feia que a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) chamou a psicóloga Regina Brandão para fazer uma intervenção de emergência na Granja Comary. Ainda presos nas grades da “fase de negação”, os jogadores rejeitaram a ajuda: não somos malucos.
O país do futebol, o país do samba, o país da alegria sempre se apóia em uma euforia pouco justificável para resolver seus problemas. Saiu a psicóloga e entraram antigos jogadores, com fama de festeiros, para ajudar no equilíbrio emocional da Seleção. Edilson e Vampeta vieram batucando no ônibus com os jogadores. A festa antes do jogo tinha quase um clima de “já ganhou”. Do outro lado, uma Alemanha focada.
É mais fácil tachar de frios cidadãos que carregam em sua cultura uma forte diferenciação entre público e privado. Quando vestem seus uniformes, eles são atletas profissionais, concentrados e bem treinados. Quando interagem com leveza e simpatia com os moradores de Santa Cruz de Cabrália mostram que podem ser tão divertidos quanto os brasileiros. A nós falta foco. Exageramos nas emoções no momento errado. Um atleta lesionado criar um clima de comoção é inaceitável para um esporte coletivo. O problema é que somos assim em tudo. A vitória ou derrota de um time de futebol afeta pesquisas de intenção de votos, percepção do brasileiro sobre a economia. Quando vamos amadurecer?
A falta de equilíbrio emocional de nossos atletas – um problema antigo, já detectado no episódio da convulsão de 1998 – é reflexo da nossa imaturidade social. Nos abatemos com facilidade quando verificamos um adversário mais forte. Nossa autoconfiança vem da vaidade. Não temos orgulho de pátria, temos vaidade de torcedor. A Seleção da CBF – das grandes empresas, grandes marcas – perdeu e os brasileiros queimaram bandeiras. Chega dessa história de país do futebol. Nem aprendemos a ser um país, ainda. Perder para um time forte é a coisa mais natural do mundo, mas o placar denota um forte componente emocional. Agora, todos nós no papel de capitães retrospectiva (aqueles que analisam o que deu errado depois de ter dado errado), procuramos causas. Os cartolas não prestam, os jogadores são jovens, Felipão abriu o time, Neymar não jogou. Não importa. A Copa deixa um lindo legado, foi emocionante ver a palheta de sotaques que tomou o Brasil, mas a participação da Seleção e o impacto da derrota mostra o quanto somos crianças enquanto cidadãos. Todos nós, torcedores e jogadores.

Subindo o Monte Roraima

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Up! Lá em cima tudo é verde, tudo é azul. Os espíritos indígenas que dormem nos platôs venezuelanos, irmãos do Monte Roraima, cercam as barracas dos turistas montanheiros à noite, juram os guias da expedição.

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O Monte Roraima é chamado de “Madre de todas las aguas”.

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Seu irmão, o Kukenán, tem outra energia. Carrega a força da morte.

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As lendas venezuelanas dizem que cada um dos tepuis do Parque Canaima era ocupado por diferentes tribos indígenas. Os índios tinham, de acordo com o platô que habitavam, estatura e fisionomia distintas. Os poderes sobrenaturais dos caciques também ditavam a energia dos platôs.

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Durante a semana de caminhada e subida até o cume do Roraima, os guias evitam contar histórias de morte e turistas que se perderam nos labirintos do topo do Roraima. Quis a natureza que essa pedra tivesse um formato que lembra uma escultura do líder cubano Fidel Castro.

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O caminho é pesado, exige dos músculos. As noites longas e frias são povoadas por sonhos estranhos. Mas a alegria de conquistar o grandioso tepui acalma todas as dores.

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Administradores do parque já pensaram em usar equinos para subir com o peso dos mantimentos das equipes de expedição até uma parte da trilha. Mas descobriram que o capim que cobre a Gran Sabana não tem nutrientes para alimentar os animais. Mesmo assim, belezas florescem nas trilhas.

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As aves parecem cães mansos. Comem nas mãos dos turistas.

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No topo do Roraima o frio é intenso, chega a 3 graus. Mas é impossível resistir às “jacuzzis” forradas de cristais.

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Recuerdos de Ypacarai

“Es muy cerrada al español”, reclamou o taxista. Vinte minutos depois, no entanto, já cantávamos juntos a mais famosa das músicas paraguaias. Ele ria da minha dificuldade linguística e insistia que eu parecia “una carioca”, apesar do forte sotaque mineiro. Estávamos a caminho do Lago Ypacarai. Já apaixonada pelo Paraguai, não poderia sair do país sem ver o local que inspirou a escritora argentina Zulema de Mirkin a compor o maior ícone da música do país: Recuerdos de Ypacarai.

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Até o início do século XIX, um trem de luxo saía do centro de Assunción para Ypacarai.

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Os trens de luxo estão no museu ou ganharam finalidade alternativa.

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e nas ruas ônibus da década de 1960 transportam os trabalhadores.

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Mas quem anda de táxi também experimenta uma volta ao passado. A frota é de carros de luxo com mais de 15 anos de uso, importados de outros países.

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O passado do Estado militarizado também persiste no país.

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O círculo do ódio

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Há um repetido ditado budista que retrata a ineficácia da vingança com a imagem de um homem segurando um carvão em brasa para lançar contra o agressor. Para muitos, o budismo é a arte dos conformistas, mas com ou sem teorias de apaziguamento, há muitas questões dos trabalhos das comissões da verdade – criadas para relatar as atrocidades cometidas durante a Ditadura Militar brasileira – que só o tempo histórico responderá. Os portais de notícias estampam o assassinato do coronel Paulo Malhães. Aos 76 anos, ele foi covardemente executado. O militar da reserva foi sequestrado e torturado por nove horas, aos mesmos moldes do trabalho de  torturador que exercia em nome do Estado brasileiro até o início da década de 1980.

Malhães chocou a nação com a frieza do relato das atrocidades que cometeu à época da Ditadura. Contou com detalhes a comissões da verdade, em março desse ano,  os crimes cometidos com a anuência institucional. Em nenhum momento demonstrou vergonha por ter sido um matador na folha de pagamento da União, e com insígnias. Quantas pessoas o senhor matou e torturou, perguntaram a ele. “Tantas quanto foram necessárias. Difícil dizer quantos torturados, mas foram muitos.” Como o senhor escondia os corpos?Naquela época, não existia DNA. Quando você vai se desfazer de um corpo, quais partes podem determinar a pessoa? Arcada dentária e digitais. Quebrava os dentes e cortava as mãos daqui para cima. Podem escavar o Brasil inteiro que não vão achar ninguém, nós desaparecemos com todo mundo.”

Sociedade civil, Forças Armadas e integrantes da bancada militar, todos remoendo o desconforto das doloridas verdades históricas. Do Congresso vieram notícias informando que militares se articularam à família do coronel para providenciar um laudo de insanidade. Só a loucura atestada poderia diluir o impacto do depoimento. Nem deu tempo. Hoje, Malhães foi encontrado morto por sufocamento, “técnica” comum da cartilha de tortura militar.

As especulações já foram lançadas.Alguns dizem que foi queima de arquivo, pois o coronel expôs as artérias das Forças Armadas e comprometeu toda a instituição e a imagem de outros torturadores que circulam por aí recebendo honras de serviço prestado ao país. Outros dizem que a sociedade, ainda, não confia nas instituições e que cidadãos indignados – com ou sem relação com vítimas da Ditadura – decidiram fazer justiça de Talião. A morte chocante do coronel reformado, idoso e indefeso, apesar do grande número de armas que tinha em casa, é um espelho que deve ser instalado diante de todas as autoridades escolhidas para reescrever o histórico político de  um país que ainda não decidiu se quer vingança, aos moldes jurídicos, ou se vai esperar que todos os atores de um passado sombrio morram de velhice para enterrar junto o tempo antigo e reinaugurar uma sociedade democrática e avessa a regimes em que um pequeno grupo tenha voz e razão.

Ah, seu Ariano!

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Tenho o corpo sonso e hirto, acabreado com esse mundo. Mas minha alma, ah, essa danada, voa estouvada e só gosta das que também são assim. O escritor Ariano Suassuna, com 87 anos, é mais arejado do que muita juventude, por aí. Em meus estudos de doutora em ciências de gente, há uma tese que diz: as gentes só enxergam em seus semelhantes qualidades que lhe pertencem. Se eu vejo o seu Ariano Suassuna deitado no chão do aeroporto vou interpretar o gesto com os símbolos do meu universo particular. “Ele está protestando contra a estrutura dos aeroportos”, simplifica o dono de uma mente protestadora. “Não, ele está poetizando a correria do dia-a-dia”, viaja o dono de uma mente poetadeira. E seu Ariano Suassuna, o senhor precisa de explicação para deitar no chão? Não, não precisa, explica sua assessoria de imprensa. “Ariano não gosta de permanecer sentado e adora esticar as costas no chão. Além disso, está surpreso com a importância que a mídia e as pessoas estão dando ao acontecido.” Fim.

O sapateiro do Setor Comercial Sul

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Seu José Cícero muda de assunto quando perguntam a sua idade. A vaidade em negar acesso ao calendário de sua existência é coerente com o cuidado que tem ao combinar a cor das roupas, ajeitar o chapéu e manter as unhas impecáveis, apesar de trabalhar o dia inteiro com tintas de diversas cores. O branco do bigode, a fala arrastada e a longínqua linha do tempo de sua história de vida, porém, dão pistas de que seu José Cícero não é novo, não. Só de trabalho como sapateiro no Setor Comercial Sul – uma espécie de “Cracolândia” de Brasília – ele acumula 35 anos. Todas as décadas no mesmo ponto, atrás do prédio da empresa de telefonia que negou emprego a ele, assim que trocou a paradisíaca Parnaíba pela capital. Ainda moço, no Piauí, José Cícero era o melhor funcionário da fábrica de sapatos de sua cidade. Os amigos insistiam que ele deveria levar seu talento para o “Sul” e ganhar muito dinheiro. Escolheu Brasília para construir o novo lar e trouxe a mulher e os 14 filhos. Só aqui descobriu que a capital não tinha fábricas de sapato. Ser sapateiro era o único ofício que apreciava e dominava. A família de 16 pessoas não podia esperar José Cícero encontrar uma nova vocação, então, foi bater à porta da empresa de telefonia em busca de emprego. Conseguiu uma vaga. Salário pequeno, perspectivas pequenas. A experiência não deu certo, José Cícero logo perdeu o trabalho e decidiu fazer o que gostava. Ajeitou suas ferramentas, um banquinho e fixou ponto protegido por uma marquise, encostado em uma das pilastras que sustentam o prédio que abriga sua antiga empresa. “Estou aqui, no mesmo lugar, há 35 anos”, repete. Em todos os dias de chuva e em todos os dias de sol, José Cícero cumpre expediente aos moldes de um funcionário modelo. Chega às 9h e sai às 16h, como se o patrão fosse um sujeito amargo e inflexível aos horários de seus chefiados. Com seu trabalho, criou os 14 filhos. “Oito homens e seis mulheres”, detalha orgulhoso. Em 2000, a vida sofreu doloroso divisor de águas. “Quando a velha morreu, eu fiquei meio assim, sem saber o que fazer.” Mas o destino tratou de remediar a tristeza do coração de seu José Cícero. “Recentemente, me engracei com outra, estamos juntos, vamos ver no que dá.”

Mais Médicos, menos elite

cubanos Eu até me considero uma boa filha, mas nunca vou conseguir compensar minha mãe da frustração de não ter uma pediatra na família. Na roça, na fronteira, nas aldeias, ou qualquer lugar com mais terra do que asfalto, médico é uma espécie de celebridade. “O filho dela formou pra doutor”, “ele passou no vestibular pra doutor, é ótimo partido para casamento”, e assim por diante. Passar cerca de 10 anos estudando medicina sem renda para contribuir com as despesas da família é pra ricos. Ou heróis (sim, eles existem). E meus oito anos de experiência trabalhando no SUS me deixam muito confortável para dizer: são poucos os ricos que têm prazer em trabalhar pra pobre. Já vi muita coisa bonita em pronto-socorro público. Já vi médica deixar o horário de descanso, pegar o carro e ir visitar paciente no outro lado da cidade. Já vi obstetra deitado na cama batendo papo com gestante horas antes do parto, para deixa-la mais calma. Já conheci esses heróis, mas eles são poucos. Não gosto nem um pouco do viés eleitoral que o programa Mais Médico está ganhando, mas diferentemente dos preconceituosos, admiro muito a coragem desses profissionais que desembarcam no Brasil. Chegam com disposição, apesar da imprevisibilidade dos problemas que enfrentarão e da hostilidade dos colegas. Quando os cubanos chegaram “com cara de empregada doméstica” (como expeliu uma internauta já devidamente castigada por não saber guardar seu preconceito na mesma caixinha que todos guardam) ficou claro que nossa educação ainda é feita de castas. A internauta associou as médicas cubanas a “empregadas domésticas” tentando relatar sua surpresa ao ver mulheres negras de jaleco. A população cubana, majoritariamente negra, consegue chegar aos cursos de medicina. Assim, existem muitos médicos negros em Cuba. Infelizmente, o brasileiro ainda associa o negro ao trabalho braçal e os brancos “com postura e cara de médico” a trabalhos intelectuais. Clássico do Brasil colônia. Mas, a verdade é que os mais pobres ainda não têm o privilégio de escolher a profissão levando em conta somente a vocação. É como se o lugar social da família, a raça e os padrões culturais ditassem a escolha da profissão, ou, resumindo, o futuro. Assim como voar perdeu todo o glamour com a popularização das passagens aéreas, a medicina mudou. Nos prédios velhos de regiões centrais, dezenas de médicos fazem atendimentos em escala industrial, cobrando honorários de dois dígitos de pacientes pobres demais para ter plano de saúde e apressados demais para buscar o SUS. Mesmo os médicos que atendem em sofisticados hospitais particulares vivem reclamando que os planos de saúde pagam muito pouco por seus procedimentos. Alguns especialistas renomados e médicos do grande filão estético levam vidas de dr. Hollywood. No mais, os doutores têm que cair na real de que estamos vivendo a era da proletarização da medicina. Isso é ruim para a categoria, mas é bom demais para quem precisa de mais médicos e menos estrelas.

O sertanejo é, antes de tudo, um poeta

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Euclides da Cunha entrou para a história dizendo o óbvio: o sertanejo é, antes de tudo, um forte. Pra mim, o sertanejo é um poeta. É nobre ao superar a secura do solo e a dureza da vida. Cresce com o corpo queimado pelo sol, repleto de ossos e parco de músculos. Na paisagem do sertão, espalham-se cactos e sombras de animais mortos colados ao chão e, mesmo assim, o sertanejo olha pra vida e encontra beleza.
E essa poética do sertanejo está impregnada em sua arte, sua música, seu sotaque. Tive um professor na faculdade que rejeitava a ideia dos bairrismos. Ele dizia que era uma falácia a história de que o mineiro sente de um jeito, o paulista de outro e daí por diante, gentílico a gentílico, Brasil afora. Discordo frontalmente. Qualquer olhar meramente sensível é capaz de perceber a riqueza das diferentes percepções de mundo projetadas em cada estado. Encanta-me, especialmente, a gentileza de alma do povo nordestino. Como eles conseguiram tirar do escaldamento imagens tão lindas para a memória brasileira. Reverência especial, assim, ao rei do baião, Luiz Gonzaga. É doce imaginar o sertão pela sua poética. Faz bem ao coração não pensar o sertanejo somente como o pobre coitado que não consegue se alimentar direito e perde tudo na estiagem. Situar o homem sempre à margem do desenvolvimento econômico é limitador e a música de Luiz Gonzaga conseguiu mostrar ao país o sertanejo que é, antes de tudo, um sensível. O eu-poético do rei do baião é um cara satisfeito com o que é, feliz com o que tem, dando a receita perfeita de felicidade, se é que ela existe, ou da tão procurada paz de espírito. Ele repete e repete e repete que se pudesse escolher ser qualquer um continuaria sendo o mesmo ‘mané Luiz’. Na música “Boiadeiro”, de Armando Cavalcanti e Klécius Caldas, a poética sertaneja transforma o trabalhador em um rei, grato e feliz por tudo que tem.

De tardezinha quando eu venho pela estrada
A fiarada tá todinha a me esperar
São dez fiinho é muito pouco é quase nada
mas não tem outros mais bonitos no lugar (…)

(…) E quando eu chego na cancela da morada
Minha Rosinha vem correndo me abraçar
É pequenina é miudinha é quase nada
mas não tem outra mais bonita no lugar

Amar o que se tem, quem se tem. Ver beleza nas pequenas coisas do mundo. A poética sertaneja me encanta e me ensina em “Estrada de Canindé”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira.

(…) Quem é pobre anda a pé
Mas o pobre vê nas estrada
O orvaio beijando as flô
Vê de perto o galo campina
Que quando canta muda de cor
Vai moiando os pés no riacho
Que água fresca, nosso Senhor
Vai oiando coisa a grané
Coisas qui, pra mode vê
O cristão tem que andá a pé (…)

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O Brasil orgulhoso do Brasil

O Brasil orgulhoso do Brasil
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Deixei a juventude com a frustração de não ter sido cara pintada, não poder contar que nadei no espelho d’água do Congresso. Ontem, já não jovem e a trabalho, fiquei orgulhosa dessa geração que vem aí tentar fazer do Brasil uma Nação melhor do que nós fizemos. Sem cores partidárias, a juventude de Brasília ocupou a Esplanada, tomou o Congresso de forma republicana. Republicanos, também, foram os policiais escalados para acompanhar (grifo no acompanhar) os protestos. Estudantes de medicina, antes de iniciar o protesto, procuraram o comando da polícia para dizer que em caso de confronto poderiam, também, atender os policiais feridos. Durante a manifestação, estudantes ofereciam água mineral aos policiais e os agentes públicos, por sua vez, eram cordiais quando abordados pelos estudantes que pediam informações sobre rotas alternativas para evitar locais com o trânsito bloqueado. É emocionante ver nossa Democracia sair da infância, rumo à juventude.

A sociologia da novela das oito

Entre algumas disciplinas questionáveis do ponto de vista acadêmico, estudei ‘Análise da Telenovela’ na minha graduação em jornalismo. A matéria ficou na fronteira das Ciências Sociais, na fronteira nula que abriga as Ciências da Comunicação, mas nem por isso considero que a disciplina tenha sido tempo perdido na grade curricular. As novelas são arquivos da memória brasileira, deveriam ser estudadas com o apoio das teorias da semiótica da Cultura, para que os livros dessem conta do residual novelístico nos símbolos que unem um país. Mas como estudiosa eu sou mesmo uma noveleira convicta. O realismo fantástico dos grandes autores de novela da Globo sempre me encantou. Mas de uma ou duas décadas pra cá, a estratégia de baratear as produções e recriar cenários e histórias mais palatáveis aos patrocinadores limitou as novelas ao bairro do Leblon, no Rio de Janeiro, e a um pequeno núcleo pertencente a um subúrbio maquiado. Limitadas também são as histórias de vida contadas. Pouquíssimos personagens têm densidade psicológica. Recentemente, o autor Lauro César Muniz, em entrevista à Folha de S. Paulo, mencionou o impacto da expansão da “classe C” (odeio essa expressão) na produção novelística brasileira. Para falar mais diretamente à faixa de cidadãos recém inseridos no mercado de consumo os roteiros das novelas teriam sido simplificados, como se a “classe C” estivesse em situação de inferioridade intelectual, “chamados de idiotas”, criticou o autor, referindo-se à Globo e lembrando que a ficção na Record cresce por utilizar estratégia inversa. Na Globo, no entanto, há um autor da nova safra que gosto bastante, é o João Emanuel Carneiro. Ele me ganhou muito desde A Cor do Pecado, trama deliciosa. Agora, Avenida Brasil apresenta-se como uma promessa. Melchiades Filho escreve hoje na Folha de S. Paulo um excelente artigo sobre a novela, o reproduzo aqui.

“Nunca antes neste país houve novela tão lúgubre como “Avenida Brasil”. A marca da maldade aparece toda noite, as cenas costuradas para afligir a audiência.João Emanuel Carneiro já havia brincado com as fronteiras entre o “bem” e o “mal” no trabalho anterior. “A Favorita” demorou a esclarecer quem, afinal, era a vilã.Mas ali o que surpreendeu, e virou marca-registrada do autor, foi o ritmo frenético. Cada capítulo abria e fechava um pedaço do enredo.Desta vez, João Emanuel vai além na quebra de maniqueísmos. A ideia de pureza foi simplesmente suprimida logo na estreia da história, com a morte trágica do personagem de Tony Ramos.O ator que durante décadas encarnou a honestidade na TV agonizou entre soluços de sangue, sob chuva torrencial, atropelado depois de constatar que a mulher era uma pérfida. O herói com caráter, vimos, não passava de um banana. Para piorar, no último suspiro ajudou a armar o novo golpe da algoz.Adriana Esteves vive a vilã barra-pesada, antológica. Agride crianças, humilha o amante/comparsa, engana meio mundo enquanto planeja enganar a outra metade.A novidade é que quase não há integridade nos demais personagens. Vide os galãs: o craque de futebol pulou a cerca no dia do noivado; o filho adotivo alterna pileques com rompantes machistas; o empresário boa praça faz rodízio de esposas.A mocinha de doce só tem o rosto –Débora Falabella foi outra boa sacada de escalação. Para engatilhar a vingança, largou o namorado e se finge de amiga da cunhada da vilã.Todos mentem e trapaceiam no subúrbio emergente e consumista que serve de cenário à trama. Vale o lema “os fins justificam os meios” (ou “rouba, mas faz”, “rouba, mas pro partido”, “todos roubam”…). “Avenida Brasil” nos convida, ou nos coage, a torcer por quem faz o mal. Testa nossa ruína moral. Dói.

Enfim, Tocantins

Tédio, tristeza, monotonia. Remédio? Natureza. Segue relato visual do pouco que conheci dos municípios de Taguatinga, Aurora e Arraias no Tocantins. Recomendo para pessoas com pouco tempo e doenças da cidade.

Essa é a nascente do Rio Azuis, em Aurora. Ele é considerado o menor rio do mundo, pois corre apenas 130 metros antes de cair no Rio Sobrado.

O nome do rio é autoexplicativo

Duvida?

De azul, o Azuis vira o Sobrado

E o Rio Sobrado corre, corre até virar a Cachoeira do Registro

que não aceita um ‘não’ quando convida para tomar banho aqui

aqui,

e aqui!

Andando em direção à Serra Geral, paredão que divide o Tocantins da Bahia

Encontra-se a Gruta dos Caldeirões

Para alcançar o salão de pedras é preciso aventurar-se atravessando esse rio

mas vale a pena.

O pior racismo mora no Brasil

Uma vez, um amigo também jornalista e também negro disse que Brasília deveria ser melhor para viver do que outras capitais, como Rio e São Paulo, pois aqui a política dos salários altos do funcionalismo provoca o fenômeno do negro bem remunerado, sem que isso esteja relacionado à ascensão de desportistas ou músicos. Os concursos públicos poderiam promover a tão aclamada meritocracia, assim, Brasília lidaria melhor com os negros inseridos no mercado de consumo. Concordei com esse meu amigo. Disse que em Brasília, principalmente na Esplanada dos Ministérios, é comum ver negros em cargos de chefia, engordando o contracheque com DAS e circulando pelas sodomas e gomorras do consumo de cabeça erguida. Acrescentei ainda, ao nosso debate, que em Brasília era possível alguém ser negro e ser observado pela sua comunidade como algum trabalhador da área intelectual, sem que isso parecesse uma aberração. Mas essa nossa conversa foi muito precipitada. Na quinta-feira, o secretário de Recursos Humanos do Ministério do Planejamento morreu, aos 56 anos, por falta de atendimento na rede hospitalar particular em Brasília. Eu sou muito contra a prática da “carteirada”, mas juro, se qualquer parente ou amigo estivesse morrendo graças à burocracia desse suposto país em desenvolvimento não me furtaria o direito de intimidar os burocratas. Mas parece que Duvanier Ferreira e sua família não fizeram isso. Ou se fizeram, os burocratas que ficam atrás dos balcões dos hospitais não acreditaram que aquele negro poderia pertencer ao governo federal, em posição de alto destaque. Quando vi a foto do integrante da cúpula do Ministério do Planejamento que morreu por falta de atendimento, a primeira ideia que veio à minha cabeça foi o critério raça. Como poderia ser diferente? Tenho muitos amigos brancos que dizem que não há racismo no Brasil. Nunca ouvi tal frase dos meus amigos negros. Por mais que nós ainda usemos as figuras alegóricas do Carnaval, da música negra, somos mais racistas do que qualquer país do mundo, pois não aceitamos e nem debatemos o nosso próprio racismo, alegando que somos uma pátria que convive com as diferenças, por isso somos tão especiais. Enquanto isso, o negro no Brasil ganha salário de negro e tratamento de negro. E agradeça, pra você isso está muito bom! E é muito bom ser negro, só não é bom ser tratado como negro, no Brasil.

Nicolas Behr mode on (ou, pô, CCBB de Brasília!)

Não dou sorte com o CCBB de Brasília. Ou o CCBB da Capital é MUITO ruim ou sua versão fluminense está à frente dos padrões nacionais de entretenimento cultural e estou fazendo uma comparação injusta. No Rio de Janeiro, um dos espaços que eu mais amava era o Centro Cultural do Banco do Brasil. Como era bom cruzar a avenida Rio Branco e entrar na Primeiro de Março para aproveitar as exposições naquele prédio magnífico.

Foto do CCBB do Rio de Janeiro, retirada do blog Dicas Aleatórias

Era impossível passar menos de três horas nas galerias. Artes plásticas, instalações de homenagens a grandes criadores, espaços interativos, tudo isso regado à vivacidade dos visitantes que lotam o espaço. Jovens secundaristas (que matavam aula no CCBB), estudantes das Belas Artes, grandes famílias com crianças animadas e todo tipo de tribo que uma cidade de verdade abriga. Em Brasília, o CCBB não tem vida. Já ocorreu de em um fim de semana o espaço não ter nenhuma exposição aberta ao público. Relevei, pensei ser azar, mas a recorrência da fraca programação e a falta de criatividade dos curadores chega a ser irritante. Atualmente, o CCBB de Brasília apresenta a exposição da gravurista Maria Bonomi. Oba! Adoro gravura, bora para o CCBB. Mais uma decepção. A falta de cuidado da curadoria com a obra da artista chega a ser desrespeitosa, seguem registros:

O verso das fichas técnicas foi forrado com papel jornal (todosPasmos#) e o arremedo ainda “briga” com o quadro que está no lado contrário de um dos corredores!

Em uma instalação belíssima (Dança das Facas, de 2003) que traz a poética da luta pela terra, os responsáveis pela mostra deixaram a parede suja e pregaram adesivo com a mesma cor do fundo (ou seja, ilegível) para orientar os (sofridos) visitantes sobre a data e título da obra.

Os responsáveis pelo CCBB de Brasília precisam visitar o CCBB do Rio para aprender a dar vida a um espaço. O centro da capital fluminense atrai pessoas de todas as idades e classes sociais. A curadoria das exposições tem o cuidado de pensar a luz e a trilha incidental para dialogar com as obras de arte. A interatividade também é indispensável. Em exposições musicais o centro costumava deixar instrumentos ligados à disposição dos visitantes que soubessem tocar,  o que sempre gerava apresentações de improviso, tornando mais viva a experiência de percorrer os corredores do CCBB Rio. É uma vergonha um espaço como o CCBB de Brasília ser tão mal aproveitado.

Considerações de Ivan Gelado

Replico aqui uma história solta que ouvi de um morador de rua, dentro do ônibus que faz a linha Rodoferroviária X Rodoviária do Plano Piloto, em uma tarde já considerada perdida. São trechos soltos, soltos como a mente do morador de rua. Ainda não descobri se o homem era um gênio ou se estava bêbado. Ele contava a história de um amigo: Ivan Gelado, um coveiro. O morador de rua usava histórias de Ivan Gelado para falar sobre o envelhecimento e a morte.  Ele não falou comigo. Conversava sozinho, como quem tenta colocar as ideias no lugar, mas ouvi tudo e tomei notas:

“As pessoas agora acham que sou aberração

há alguns anos eu não era aberração

eu ando devagar, estou muchibado, mas respiro e penso

estou falando isso e lembrando do meu amigo

o Ivan Gelado, isso mesmo, Ivan Gelado

A gente chama ele de Gelado porque ele mexe com defunto o dia inteiro

(ri alto) ele pega nos defuntos e não tem medo, não

eu vou no cemitério tomar pinga com ele

e ele fala pra mim: a velhice é uma espécie de inexistência

O Ivan Gelado fala que velho e defunto é tudo uma coisa só pra sociedade

a gente fica velho e invisível, pro Ivan Gelado

Você tá ouvindo, todo mundo é só um corpo

e não importa se o corpo está vivo ou morto

importa é se esse corpo trabalha

porque é assim na sociedade, só tem valor quem faz dinheiro

não estou falando de ser garota ou garoto de programa, não

to falando daquilo que os comunistas falavam

da matéria, do material

eu li muitos livros, já trabalhei, já fui novo

agora como fala o Ivan Gelado, eu sou uma inexistência

a sociedade só deixa entrar nela alguns

eu já entrei, mas agora tô expulso”

A universidade é um enclave

Um bando de maconheiros que querem a polícia fora do campus para fumar livremente. Fácil assim, pessoas que não tiveram a sorte de vivenciar (ou não valorizaram) a experiência das grandes instituições de ensino brasileiras se apressam em julgar a invasão da USP. A nova geração de uspianos deu a cara para bater em protesto contra a solução descomplicada de entregar a segurança do campus a um aparato de segurança que ainda carrega na farda manchas de sangue. A nódoa é de uma antiga leva de universitários, os que não aceitaram as armas ditando o rumo do país. E isto pode parecer pequeno para os yuppies que tratam um diploma como um adereço de parede. A vivência universitária é o primeiro passo para a seara das ideias, caminho que ensina a mente a trabalhar com conceitos, enterrando pré-conceitos. Um campus é antes de tudo um território das letras, da liberdade. É um enclave onde as regras e modus operandi da sociedade são analisados e questionados. Se não há liberdade na universidade, ela sequer existirá nas palavras de filósofos, sociólogos ou antropólogos formados pelas instituições de ensino brasileiras. Não temos uma polícia cidadã, uma polícia com respaldo social para apontar o dedo na cara de quem quer que seja, para fazer valer dentro de uma universidade regras que não consegue controlar em nenhuma outra área. Nossa polícia está sub judice, ainda precisa provar sua inocência para a sociedade decidir se a absolve ou não. E grande parte dos ‘juízes’ que decidirão isso serão cientistas sociais dos bancos da USP. Em todas as reportagens que registram (e reprovam) a revolta dos estudantes contra a invasão policial na USP, os alunos que criticam os colegas são estudantes que se dão ao luxo de se preocupar apenas com o lado “prático” da vida. Diferentemente da matemática e da física, em sociedade seguir as regras impostas nem sempre é a forma de conseguir a resposta certa. Falta de segurança não é argumento para dar à polícia as chaves da maior universidade do país. Monitoramento de quem entra e sai do campus e garantia de vida e bem estar dos alunos é responsabilidade da administração da universidade, que conta com um gordo orçamento para isso. Polícia é o Estado com armas. E ainda está muito vivo na memória dos brasileiros a última vez que o Estado entrou nas universidades, para matar e torturar quem se opôs a ele. É uma pena que o máximo de rebeldia que essa nova geração consegue ostentar é um cigarro de maconha. Mas o cigarro de maconha da USP é o panfleto anti-militar de décadas atrás. E dos portões da universidade para dentro, toda rebeldia é bem vinda, polícia e bandidos não.

Josie Jeronimo é jornalista, nunca fumou maconha e lamenta que as forças repressivas do Estado ainda estejam no front oposto

Adeus, presidente

Quando o senador Itamar Franco foi internado em São Paulo, Fonseca, seu assessor de imprensa no Senado, distribuiu nota com informações sobre o estado de saúde do ex-presidente com um nó na garganta. O comitê de imprensa da Casa foi silenciado pela notícia. Muito triste, o nobre Fonseca repetia aos repórteres: “Vai dar tudo certo, né? Ele vai voltar.” Assessorar políticos não é coisa fácil. O profissional da imprensa mistura seu nome e cede princípios pela causa de um mandato que muitas vezes pode não estar no rumo certo. É possível saber muito de um político pelo orgulho ou constrangimento de seus assessores. E só pude conhecer bem o ex-presidente pelos olhos de seu assessor. Ouvi pela primeira vez o nome de Itamar Franco no início da minha adolescência, quando ele assumiu a Presidência após a derrocada de Fernando Collor. Como meu temperamento sempre me levou a uma mania de rejeição aos “normalzebas”, Itamar enchia meus olhos por suas supostas “maluquices”. Era muito bom ter um presidente cheio de alma, e, ainda por cima, honesto. Quase duas décadas depois da imagem folclórica que construí sobre Itamar na minha mente, fui alcançada pelo encantamento de ve-lô novamente em atuação, e bem de perto, no Senado. Tive a honra de entrevistá-lo logo depois de assumir o mandato de senador, em fevereiro deste ano. A admiração só aumentou. A simplicidade e honestidade com que conduzia o mandato e a vida impressionaram ainda mais a Fonseca. O assessor se derretia pelo exemplo do homem público que era Itamar, e todos os dias tinha uma história para contar. Em Brasília, o ex-presidente transitava por lojas de departamento quando precisava equipar seu apartamento funcional. Parou as Casas Bahias do Conjunto Nacional quando apareceu para comprar “uma televisão pequena”. Mas o passeio preferido era a “Feira dos Importados”, ou “Feira do Paraguai”, comércio popular de Brasília. “Eu sou simples, meu pai me educou assim e eu sou assim”, dizia o ex-presidente. Alto clero com olhos de vereador, antes de ser internado Itamar tinha o projeto de procurar o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, para pedir ao governante informações sobre os moradores de rua que se espalham pelo Eixo Monumental, nas proximidades da Rodoviária do Plano Piloto. Ele foi presidente e ainda pensava “micro”, enxergava as pessoas. Tenho certeza que hoje o Fonseca deve estar muito triste, perdeu um dos chefes que mais admirou. O país perde um ex-presidente que talvez não tenha, em vida, recebido reconhecimento proporcional a sua grandeza.

Amazonas rio acima

Josie Jeronimo

Cinco dias em um barco na viagem de Belém a Manaus, subindo o Rio Amazonas, é um convite para duas das melhores coisas da vida: beber cerveja

Josie Jeronimo

e fazer amigos

Josie Jeronimo

Josie JeronimoJosie JeronimoJosie Jeronimo

amigos tão legais que emprestam brinquedos

para você não usar seu tempo com coisas chatas

deixando Belém rumo a Manaus, as experiências no barco não abrem mesmo espaço para a solidão das letras

as águas, vidas e matas que correm pelo caminho são protagonistas

e das redes que lotam o barco

arvorecem histórias como a de dona Socorro, que foi entregue para adoção aos seis anos, e 57 anos depois venceu o Amazonas até a altura de Monte Alegre, no Pará, para conhecer a mãe biológica que a encontrou pela lista telefônica

os ribeirinhos do Amazonas remam em direção às grandes embarcações que sobem e descem

palafitas repletas de crianças despertam quando o barco passa

na água, acenam e esperam que os passageiros lancem alimentos

quem não gosta de esperar pela caridade, “pesca” o barco e arrasta a canoa para vender iguarias na embarcação

paga-se R$ 10 por um cesto de camarões graúdos e R$ 3 por um vidro de palmito bem macio

Datiely subiu com os irmãos para vender camarão e permitiu que eu fizesse essa foto, depois pulou no rio e remou sua canoa de volta para casa

por vezes, o coração acha que ama o rio, por vezes o coração se retorce pelas crianças presas a uma vivência de peixe

mas o Geraldinho, pequeno morador de um município próximo a Santarém, nem liga para a parca piedade dos olhos burgueses e lambe os dedinhos comendo farofa de farinha amarela imerso nas águas do Tapajós

depois mergulha só para debochar de quem tenta ensinar aos outros o que é felicidade

pensei muito nisso nos fins de tarde no meio do Amazonas

pensei nisso tomando banho de chuveirão com as águas barrentas, olhando a floresta guardar as margens do rio

 pensei nisso enquanto o barco cruzava o berço de nascimento do Amazonas

 para chegar em Manaus com alma de rio

O boi mais bonito da cidade

 

Pra mim, o boi mais bonito é o do Gdam. Mas o Gdam nem é boi, é grupo de dança, explicam os ludovicenses. Ah, mas o Gdam foi o mais bonito. Para você, o que é um boi bonito? Na verdade, até uma semana atrás eu nem sabia o que era “boi”. Catirina (na representação da foto acima, do boi de baixada do Grupo Santafé) é uma das protagonistas da festa folclórica que nasceu no Nordeste e foi para o Norte, ganhando expressão no município de Parintins (AM). No Nordeste é Bumba-Meu-Boi e no Norte é Boi-Bumbá. A singela história contada e recontada por trabalhadores que passam o ano ensaiando para representar na festa do boi narra um episódio de morte e redenção.

O São João no Maranhão é o santo responsável pela ressureição do boi, morto por Pai Francisco para saciar o desejo de sua esposa grávida – Catirina – que queria comer ensopado de língua de boi. A história é sempre a mesma. Pai Francisco mata o boi de estimação de um rico fazendeiro a pedido de Catirina, mas o santo conserta a situação salvando a vida do boi.

Nas festas que se espalham por São Luís, em especial na praça Maria Aragão, os maranhenses mostram verdadeira devoção pelo boi. As danças e músicas são repetidas com entusiasmo pela platéia, e quando os organizadores incluem na programação atrações estranhas aos festejos do boi, a população reage com apatia e silêncios. Os “bois” da cultura popular são divididos entre boi de orquestra e de matraca. As diferentes representações locais também são subdivididas em “sotaques”. Abaixo, seguem pequenos vídeos de apresentações dos bois na praça Maria Aragão, em São Luís, no São João deste ano.

BOI DE SANTAFÉ

BOI DE AXIXÁ

BOI DE SONHO

GRUPO GDAM

O fim do PT

Apressados analistas políticos decretam o fim do DEM e Cia, mas não conseguem enxergar que o PT, um dos poucos partidos brasileiros que trabalha com o conceito de Poliarquia, é que está prestes a acabar. Depois do fenômeno Luiz Inácio Lula da Silva, o PT não conseguiu se manter em contato com as “intelligentsias” das periferias, ou descobrir nichos de intelectuais orgânicos capazes de manter viva a chama da ideia “trabalhadores no poder”. É uma pena. Não fico da platéia rindo ao ver o PT ruir. Quem faz isso é o tipo de brasileiro que trabalha aqui para juntar dinheiro e “ir para o exterior” nas férias. E isso é a mentalidade da classe média/alta brasileira, responsável pelo entrave do país. Nosso problema não é o povo, é a classe média, rala e, quando existente, burra. Antes do PT/Poder, tive a oportunidade de acompanhar de perto um PED (processo de eleição direta) do PT. Foi lindo. Nem de perto, nenhum desses partidos da aristocracia tropical chegará à participação popular do PT. A elite compra cabos eleitorais, brasileiros desempregados e pobres, à época da eleição para segurar bandeiras. Não sou petista, não sou nada, rejeito rótulos, mas não “gosto do estrago”. O PT é mais importante para o Brasil do que qualquer agremiação de abastados. O processo de inserção do povo no debate político é urgente. Até o nascimento do PT como canal de manifestação popular, o povo era pensado como a parcela da população que precisa de transporte para ” ir votar na gente”. Como a parcela da população que a gente aperta mão e limpa com álcool-gel depois. Infelizmente, o que é possível ver é que a burguesia sempre vence. E os petistas históricos, e a genuína militância, perceberam isso. A galera “pé no chão” que quando fundou o partido sonhava envelhecer contando aos netos as conquistas sociais do país agora “só pensa em luxo e riqueza” e afastou os trabalhadores do núcleo duro do partido. E de fragilizada a oposição só tem a falta de cargos na gloriosa máquina e já percebeu a ruína do PT, que transformou sua imagem em um amaranhado de mensalões, enriquecimento ilícito de ministros e farra de apadrinhamentos na máquina estatal. O PT está morrendo de “novo-riquismo” e, com isso, grande parte do Brasil morre junto. Pensar em inclusão social, em ampliação de mecanismos de participação, em meritocracia em substituição ao elitismo, não é petismo, é nacionalismo. O problema é que até agora o único partido que tinha conseguido reunir esses valores se rendeu ao caminho fácil, cedeu ao conforto que o capital proporciona. E quando o único líder genuíno que essa legenda construiu não estiver mais por aqui, o PT vai morrer, e com eles, seus trabalhadores.

Gentileza e Estado de Guerra

Fazia calor naquela tarde. José Datrino, o profeta Gentileza, passou o dia pintando mensagens para amansar os burros homens da cidade que não tinham esclarecimento e estava cansado. Sentou em um bar e pediu uma loura gelada, enquanto acompanhava as morenas passando em direção à praia do balneário celeste. Aprendeu que não há mal algum em olhar.

Praguejava contra a maldição do individualismo da sociedade moderna quando viu Thomas Hobbes passar com uma maçã na mão.

– Hobbes, para aí, vamos tomar uma!

O inglês, que não era de muita conversa, parou. Afinal, gentileza gera gentileza. Puxou uma cadeira, pediu um copo.

O profeta Gentileza se arrependeu do convite. O filósofo só queria falar de contrato social e uma maldita teoria de estado de natureza e estado de guerra. Já estavam na quinta cerveja  e Hobbes ainda usava a maçã como alegoria para explicar como os bens sociais eram uma espécie de macieira carregada e da importância da união entre os homens para saber aproveitar bem o fruto e se protegerem contra ameaças externas.

Chato. Hobbes insistia em argumentar que para a harmonia social nenhum homem poderia se elevar ou distanciar de seus iguais. Com isso, seria possível evitar que – na ausência do sentimento de alteridade – o semelhante pudesse lhe fazer mal. Já estavam bêbados e o profeta não aguentava mais a ladainha.

-Olha só, Hobbes, isso que você fala nessa linguaguem empolada eu resumo assim: gentileza gera gentileza. Nunca é cedo para uma gentileza, porque nunca se sabe quando poderá ser tarde demais.

– Ah, vá, Gentileza, você só pode estar me gozando. Olha lá pra baixo, veja como suas teorias não passam de alegorias gravadas nas paredes sujas. Vítimas da hostilidade revidando a brutalidade do mundo contra inocentes. Nem mesmo selecionaram seus algozes. O homem é o lobo do homem.

– Palavras gentis  podem ser curtas e fáceis de falar, mas seus ecos são efetivamente infinitos.

– E as duras, também, profeta. Vê o que ocorre em sua terra, agora? Os homens estão a se matar. Uns usam palavras, outros pólvora.

– Quer saber, seu inglês esquisito, vá você, suas maçãs e lobos para o inferno. Sempre achei você efeminado, mesmo. Com esse cabelo comprido e essa roupa de babados.

– Não esperava outra reação de um suburbano analfabeto como você, profeta.

Os dois se agrediram, se levantaram, se odiaram e voltaram para casa com a certeza de que séculos e gerações depois de aprimorar um modelo de sociedade, os homens regridem para o Estado de Natureza.

* Luto pela tragédia na Escola Tasso da Silveira.

Monicelli, porque viver dói

Viver dói. Dói muito. Qualquer coisa diferente disso é ilusão ou consumo de entorpecentes. O Complexo do Alemão (RJ) não se tornou o que é porque as pessoas são felizes. É a fuga da realidade que abastece o tráfico. A dor da existência não conhece credo, classse social ou idade. E é uma dor constante. Na juventude, quando somos mais acompanhados e mais acessíveis às distrações mundanas, a  gente esquece um pouco essa dor. Mas na velhice ela aparece como um teste. Você tem fibra? Vai levar até o fim esse fardo que carrega? Uma vizinha, depois de um caloroso casamento de 58 anos, enterrou seu amado marido na semana passada. Eles se amavam muito. Criaram os filhos, acompanharam alguns dos netos crescerem, e sempre conseguiram manter o relacionamento amoroso, apesar da rotina do dia-a-dia. O marido estava economizando para fazer uma segunda festa de bodas. Agora ela está sozinha, à beira dos 80 anos. Hoje fui tomada de surpresa ao saber que o cineasta italiano Mario Monicelli se suicidou aos 95 anos de idade. Lutando contra o câncer na próstata, ele decidiu vencer a doença colocando um fim na própria vida. Se jogou pela janela do  quinto andar do hospital que o tratava. A vida é complexa, confusa, solitária, imprevisível. Qualquer coisa diferente disso, repito, é ilusão ou consumo de entorpecentes. Para os católicos, o suicídio é manifestação de fraqueza. Para o cineasta, a busca pela dignidade. Transcrevo aqui, resposta de Monicelli à pergunta do motivo do suicídio de um dos personagens que dirigiu. “Ho capito il suo gesto. Era stato tagliato fuori ingiustamente dal suo lavoro, anche a guerra finita, e sentiva di non avere più niente da fare qua. La vita non è sempre degna di essere vissuta, se smette di essere vera e dignitosa non ne vale la pena.”

O namoro e o queijo

Mais viajado do que muita gente, o queijo percorreu dez cidades, dois estados e 700 quilômetros na mochila de Shirley. Curado, veio sacudindo junto com a roupa suja e os cremes de cabelo da mineira de pele alva e madeixas ruivamente rebeldes. Morava no Rio. Deu um pulinho na terra natal, Minas Gerais, para ver os pais e buscar o queijo. Encomenda do porteiro do prédio.

Apesar do bigodinho, o charme do rapaz ao abrir com gentileza a porta do elevador todas as vezes que Shirley chegava da escola seduziu a moça. “Pena que é porteiro”, dizia ao se referir a intolerância do pai em aceitar um genro sem curso superior.

Desceu na rodoviária Novo Rio com o coração acelerado pensando na reação do porteiro ao receber o queijo. Ensaiava frases. Chegou em casa pela manhã. Não era o plantão do amado. Esperou dois dias para entregar o queijo. Olhava de vez em quando para geladeira, suspirava ao ver o queijo muito bem alojado na prateleira, envolvido por um papel de seda.

Pediu a amiga para interfonar: “Adelson, trouxe seu queijo”. Surpreso, o rapaz disse: “Você trouxe, mesmo? Eu estava brincando…” Corada, entregou o queijo ao rapaz. Ele não rendeu assunto. Guardou no quartinho dos porteiros.

Desiludida, a moça voltou para casa. No outro dia pela manhã viu que o queijo continuava lá. Agravante: estava sendo devorado aos poucos por outros funcionários do condomínio.

Pensou: para o inferno com os queijos e mais ainda os porteiros. O episódio diminuiu a devoção que tinha pelos laticínios. E pelo amor não correspondido, perdeu um dos ícones de sua mineiridade.

O ventrículo racista do meu coração

Meus afetos têm cor,  são negros como eu

Meus afetos conhecem raça

Até onde os olhos distinguem

E quando me encontro

Com minha memória-pigmento

cria-se nos meus olhos a imagem:

é só negro o coração

Meus olhos sociais, treinados

às diferenças, amam todas as coisas

Ao passo que os olhos do coração,

racistas, elegem o preto

E quer meu coração se aprazer de negro,

Porque negro ele pulsa

E espalha sua negritude

Na pele e nos olhos

Quando se encontra

Com tudo que é negro

Ama de imediato e com distinção de cor

Porque as cores são apenas

sangrias do coração

E o meu relembra uma antiga e forte

toda vez que de preto é tocado

 

(republicado do Jeronimonada 10/08/2005)

E eu morava na cidade maravilhosa com vista para o necrotério – uma despedida

(para todos que viveram no terceiro andar da Moncorvo Filho)

Os mortos de Genevaldo lhe rendiam muitas mulheres. Era feliz trabalhando como arrumador de cadáveres. Herdou do pai a profissão e a primeira missão foi enfeitar o caixão do velho que escolheu uma terça-feira de Carnaval para morrer. Dia em que todos os colegas haviam acertado uma folga e ‘seu’ Heidas tinha ficado como plantonista do necrotério do maior hospital público aquela capital.

Genevaldo aprendeu a conviver com a morte. Aprendeu tão bem que começou a tirar proveito dela. Já conhecia o choro das viúvas carentes que, por motivo de doença ou falta de amor, há muito não se deitavam com os maridos. Confortava as viúvas e contava histórias de pruridos dos mortos para as parentes mais jovens. Até conseguia um encontro ou outro, no máximo um namoro de uma semana com alguma filha triste pela perda de um ente.

O interesse da garota durava o tempo de descobrir que Genevaldo não era arrumador de mortos por opção, mas falta de talento para conseguir outro emprego. “Arrumadores de mortos ganham bem, têm estabilidade, aqui pagam em dia. Dá até para casar!”, argumentava e sempre ouvia a resposta: “Mas é claro que se tem estabilidade. Quem vai querer um emprego desses?”. E assim vivia dos amores de urgência.

Com as viúvas tinha mais sorte. Além de um corpo quente na cama do conjugado em que vivia lá para os lados de Marechal Hermes, às vezes conseguia até um pouco de amor. Muito às vezes.

Em uma ocasião conheceu a viúva de um soldado. Maria Tereza. Mulher fogosa. Na cama desmentia os quarenta e seis anos registrados na carteira de identidade. Genevaldo fartou-se em seus quadris largos. Nunca foi tão bem tratado. Além dos agrados do módulo avançado da cartilha do amor e do prazer, trazia-lhe ovos de codornas e elaboradas gemadas na cama. No início, entendeu aquilo como um insulto, sentia-se na flor de seus vinte e sete anos. Depois descobriu que se tratava de carinho de mulher experiente.  No primeiro mês, se encontravam todos os dias, depois reduziram a freqüência. Não que o desejo tivesse diminuído, mas o senhorio do prédio de Genevaldo, por bom senso ou inveja, o repreendeu pelo alarde das tardes e noites de amor.

Um dia Maria Tereza disse a Genevaldo que estava grávida. De certo ele a adorava, mas não o suficiente para elegê-la mãe de seus filhos. No mais, pensava mesmo que a mulher já estivesse na menopausa.  Se bem que, com aquele fogo todo…

Veio mansa, dizendo que precisava de trezentos reais para um remédio, pois a garrafada que comprou em  São Cristóvão não adiantou.  Pediu ao irmão, disse que o pagaria com o dinheiro do décimo terceiro salário. Na terça-feira entregou seis notas de cinquenta a Maria Tereza. Durante duas semanas não se viram. Ele pensava muito nela. Por vezes não sabia se a amava ou somente a seu corpo. Preocupou-se com a saúde dela: “Será que o remédio também a matou?”, pensava enquanto cuidadosamente ajeitava seus mortos. Até chegou a se arrepender, por alguns instantes, de ter patrocinado a morte do próprio filho. Resolveu ir até ao setor de ginecologia do hospital. Perguntou às enfermeiras que deram notícias de uma mulher com todas as características de Maria Tereza. “Abortamento”, dizia a ficha.

“Era seu filho?”, riram-se as enfermeiras. “Por que ela chegou aqui com um negão… Quando o médico perguntou por que ela fez isso disse que seria feio para uma recém viúva aparecer de barriga. E ela ainda negociou o feto com o professor de embriologia. Ganhou trezentos reais”. O mundo de Genevaldo caiu. Foi até o Andaraí e soube que Maria Tereza já era amante do entregador do supermercado Guanabara antes da morte do marido. “Trouxa!”, deixou escapar alto, dentro do ônibus.

O tempo passou lento e tedioso, coerente com a vida que Genevaldo levava. Um dia o carro da Defesa Civil chegou lotado de defuntos. Trabalho o suficiente para ocupar a noite e a madrugada. Enquanto carregava os defuntinhos, ele sentiu olhos pregados em suas costas. Pela primeira vez em anos de profissão sentiu medo. Seriam os mortos? Mas não tinha mais ninguém ali  e, no mais, sempre pode contar com a discrição dos mortos. Olhou em volta. Nada. Voltou a arrumar seus mortos, muito bem arrumados nos caixões. Sentia-se observado. Olhou para trás e viu um prédio que dava fundos para o necrotério. Só podia ser ali. Ficou quieto, prestou atenção e viu vultos do terceiro andar. Fantasmas? Não, curiosos. Na verdade, curiosas. Irritou-se com aquilo: “Desocupadas, não fazem nada e ainda divertem-se com desgraça alheia.”

Os dias se passaram e Genevaldo cada vez mais chateado com o voyeurismo do terceiro andar. Já saia de casa praguejando contra as moças. Sem sentir, vestia-se pensando que seria observado, tolhia os movimentos para parecer mais firme e tomou o hábito de ajeitar o caixão do lado de fora do necrotério. Dizia que era para diluir o cheiro do formol.

Um mês depois, Genevaldo era um homem renovado, nem pensava em Maria Tereza. Sentia-se belo e importante. Gostava de ser observado pelas garotas. Os mortos sempre lhe rendiam mulheres.  Mal sabia que não era ele, mas a morte que exercia tal atração.

(republicado do Jeronimonada 04/03/2006)

A assombração da Rio Branco

Hoje eu conheci uma assombração.

Ela me olhou fundo nos olhos e eu nos dela,

ela tinha olhos de ninguém.

A assombração vestia azul e laranjado.

Cores que não se combinam,

mas na assombração ficava bem.

Assombrações, eu descobri, são seres redondos.

Tudo lhes é redondo.

A assombração de que falo tinha barriga redonda

e usava óculos redondos sobre seus

olhos redondos na sua face arredondada.

Olhos de ninguém, confirmo.

Para saber qual é a cor dos olhos de ninguém

é  só lembrar da cor dos olhos do meu avô

a última vez que o vi.  Para quem não viu

meu avô a última vez que eu o vi, descrevo:

Azulado das tardes de inverno de nunca mais.

A assombração sentia muito frio.

“Casaco pouco pra muito frio”, dizia para mim.

Eu tentava ser cortês com a assombração

e fingia não ter medo dela.

Ela não acreditava,

também lia pensamentos.

Ela lia os meus pensamentos e eu os dela.

Assombração pensa com os olhos,

olhos de ninguém para pensamentos murchos.

Não sei se era uma assombração fêmea ou macho.

Assombração andrógena de cabelos

semi-dourados. Era uma assombração âmbar

de um amarelo tão fosco que esqueci que eu era triste.

Rabisquei alguma coisa em um papel.

A assombração leu tudo de  longe.

Ela riu-se dos meus escritos.

A assombração sentia mais frio que eu.

“Casaco pouco pra muito frio”,  repetia.

Mas conversa de assombração dura pouco.  Ela se foi.

Mesmo assim a noite fria nos reuniu em uma amizade distante.

 

*Em homenagem à assombração que eu conheci na madrugada do dia 9/7/2005 na avenida Rio Branco e que me ensinou que a morte é muito solitária. (republicado do Jeronimonada)

Brasília inventa a chuva em pó

Foto de Leandro Mazzini

Corre, é chuva! Arrastam-se os candanguinhos à janela. É nada. Só uma monstrenga nuvem marrom. “To com medo de aparecer uns bichos do Stephen King no meio da névoa”, exagera um mineiro. Depois de 124 dias sem chuva, cabeça rodando, nariz sangrando, Brasília enlouqueceu. “Em Santa Maria choveu”, diz a lenda semi-urbana. “Tem gente falando que sentiu respingos na Torre de TV”, interrompe outro. E no lugar da chuva, só névoa de filme de terror (registro de Leandro Mazzini). “Essa foto está melhor, aquela outra está parecendo qualquer cidade. Londres…”. Fog a 30 graus. “Parece que você está no meio do deserto, em uma passagem do filme A Múmia. Tem que andar de burca”,resume uma cinéfila. Mas não é nada disso, explica uma brasiliense de verdade. “A Paulinha, que tá aqui na sala e me avisou, jura que é chuva, porque conhece Brasília. Tem cheiro de chuva e terra molhada, mas evapora antes de tocar no chão”. Ah, bom. “É chuva em pó!”, resume a outra. “Que povo sofrido!”, esnoba um goiano.

Pacatuba, o botânico

Há 53 anos Benedito de Souza vive da floresta. Pacatuba, como é conhecido pelos amigos, perdeu a conta de quantas árvores derrubou. O mateiro de 65 anos mora com os sete filhos no município de Moju, no Pará. Reclama por não beber água gelada, pois a energia elétrica ainda não chegou à sua casa. “Na minha casa tem 14 eleitores e não ligam a luz, lá”. Mesmo assim, Pacatuba conta que a vida melhorou depois que ele aprendeu a ganhar dinheiro com a diversidade amazônica sem ser mais um predador da mata. “Para derrubar, a árvore custa R$ 50. E o litro de óleo custa R$ 50”, conta, apontando para uma Copaíba de mais de 30 metros de altura, com idade próxima a 300 anos.
Segundo Pacatuba, as Copaíbas podem render pelo menos 10 litros do óleo, unguento de grande procura por ser um antiinflamatório natural. Em meia hora de caminhada pela mata das proximidades do município de Paragominas (PA), Pacatuba identifica numerosas espécies e desfia a particularidade medicinal de cada uma delas.
Do amapá-doce extrai-se um excelente expectorante natural, o cedro-manso alivia os sintomas da malária, a seiva do Jatobá combate anemia e o leite da sucuba cura gastrite, insônia e enxaqueca, ensina Pacatuba.
Escalado para as forças da exploração sustentável, o botânico do povo diz que se arrepende dos muitos anos em que ajudou a devastar a floresta. Pacatuba foi treinado pelo Instituto Floresta Tropical (IFT), ONG que se dedica a promover cursos para trabalhadores e empresas que atuam na exploração de madeira e subprodutos da Amazônia, e atualmente divide sua sabedoria prática como instrutor de manejo florestal comunitário, ensinando outros trabalhadores e técnicos florestais a sobreviver do bioma sem destruir. 

A sabedoria nativa de Pacatuba encanta os gringos. Nosso amigo contou que uma vez um casal de franceses o convidou para conhecer a Europa. Ele não foi. Ficou com vergonha porque à época estava sem dentadura. Pacatuba agora se acostuma com a nova dentição e torce por um novo convite. No coração amazônico do trabalhador também arde a esperança de encontrar um novo amor. “Eu sou casado, mas minha esposa morreu há sete anos. Eu bem queria uma namorada, mas ninguém quer o coroa”, lamenta. Todos os dias, às 17h, o botânico da floresta toma banho no igarapé do IFT, na companhia dos dois jacaré de estimação do local.

Wesley Gilbert, eu me envergonho

Foto: Reprodução Jornal O Globo

Em época eleitoral, os cidadãos são envolvidos em uma espécie de histeria coletiva desencadeada por marqueteiros e veículos de comunicação que parecem descolados da real sociedade em que vivemos. Qualquer frase estúpida de estúpidos candidatos rende manchete de jornais, um batalhão de profissionais é escalado para andar atrás de políticos sorridentes que se esforçam para abraçar o povo nas ruas, em uma cínica epopéia pelo voto. É tudo falso, tudo dispensável.

Pagamos o preço do cinismo político para viver em uma democracia. Nossos supostos representantes vendem a ideia de que o custo de uma eleição é compensado por nosso sistema de governo. Também tentam passar a ideia de que um salário de cinco dígitos pagaria os milhões gastos nas campanhas e a dor de cabeça que o cargo carrega. Puro cinismo. Por nenhum salário do mundo um homem consciente aceitaria o desafio de se responsabilizar por milhares de outros homens. No máximo, alguns poucos, se responsabilizam por suas famílias.

Nós votamos e votamos e no fundo, ninguém se responsabiliza. Apesar de teoricamente vivermos em uma democracia, não temos representantes. Engane-se quem quiser. Os homens almejam o poder pelo poder ou pelos benefícios econômicos que ele proporciona. Ninguém se responsabiliza.

Podemos medir o nível da falência da nossa sociedade pela tragédia que se abateu sobre a família do menino Wesley Gilbert, aluno de um Ciep do Rio de Janeiro que morreu ontem vítima de uma bala perdida. Matéria de hoje do jornal O Globo conta que o garoto morreu com um lápis na mão. Se isso não for elemento para que qualquer um representante do poder público do Rio de Janeiro se envergonhe profundamente de seu trabalho a tese do “ninguém se responsabiliza” foi cruelmente comprovada.

O que aconteceu a Wesley não foi fatalidade. Nessa política brasileira com ranço aristocrático não há fatalidades, há negligências calculadas. Enquanto esse país insistir em manter níveis de cidadania crianças mortas com lápis na mão serão uma realidade absorvível no imaginário de fluminenses, mineiros, paulistas, capixabas e qualquer outro gentílico que exista nessa terra de ninguém.

Devemos sentir vergonha, do fundo da nossa alma, da sociedade que estamos construindo. Muita vergonha. Lamentar perder Copas do Mundo, ídolos do futebol ou final de olimpíadas só mostra a pequenez do nosso caráter. Sociedades são construídas por valores, cimento e ferragem são apenas estruturas físicas.

Quem trabalha, pesquisa ou acompanha cenários da segurança pública, de alguns estados, mas principalmente do Rio de Janeiro, sabe bem como funcionam as coisas. A manutenção da violência parece interessante a alguns. Seja pelo insaciável comércio de entorpecentes ou pelo envolvimento de braços do crime organizado com organismos políticos. Parece interessante para quem pode manter os filhos longe dessa realidade vergonhosa, em colégios caros do exterior. Parece interessante para quem aproveita todas as horas de folga longe do Brasil. Não é nada interessante para quem tem que criar filhos no subúrbio, à mercê das balas perdidas que o Estado ajuda a financiar para bandidos que têm a ousadia que escalar emissários para frequentar os palácios do poder.

O apartheid disfarçado do nosso país, seja racial, sexual, cultural ou econômico, é nossa pior mazela. Fazemos de conta que aqui não há preconceito. Cito novamente a matéria de O Globo. O jornal faz uma dolorosa revelação sobre um, digamos, presságio da morte. Há alguns meses, o pequeno Wesley Gilbert foi entrevistado pela reportagem. A pauta era ouvir das crianças moradoras de áreas conflagradas histórias sobre o cotidiano de violência. Wesley Gilbert afirmou que tinha medo dos tiros. Os erros ortográficos na redação da criança mostram o abismo social que separa a escola dos ricos da escola dos pobres. “Os tiros matão muita gente e calsão muitas brigas e confusões calsadas pelos tiros”.

Se a morte dessa criança causou traumas apenas na família, nos professores, nos colegas que terão que conviver com a recordação de ver o amiguinho baleado no chão, se a morte dessa criança não envergonha os governantes do Rio de Janeiro, preciso dizer que eu, Josie Jeronimo, EU ME ENVERGONHO.

O corneteiro de Médici

elyChover em Brasília no mês de setembro é milagre de Deus. “Pois então você verá um milagre”, cravou o taxista. Sim, chovia. “É muito raro isso acontecer, lembro que sempre tocava para o general Médici no Sete de Setembro e tinha que levar uma flanela dentro do uniforme, para lustrar aquela prataria toda, sempre subia poeira da seca e eu não podia deixar o uniforme sujo, pois eu tinha que ficar bonito para tocar para o general”, revive. Ely de Matos se orgulha de ter sido corneteiro por oito anos da Guarda Presidencial. “Oito anos, onze meses e oito dias, comportamento ótimo, faltando 22 dias para excepcional, não tendo sofrido nenhuma repreensão no referido período, assinado coronel José Moretti, comandante da Guarda Presidencial”. Tocava para muitas autoridades. Lista representantes de Estado de vários países, mas era para Médici que estufava o peito e tirava o melhor som de sua corneta para deixar contente o general. “Ele gostava muito de mim. Dizia que eu era o melhor corneteiro, que eu me esforçava. Pena que não colocaram isso na minha ficha. Oito anos, onze meses e oito dias, comportamento ótimo, faltando 22 dias para excepcional, não tendo sofrido nenhuma repreensão no referido período, assinado coronel José Moretti, comandante da Guarda Presidencial”.

Doce como só um capixaba de Mimoso do Sul consegue ser, o corneteiro saiu da guarda e decidiu entrar para a polícia. “Eu decidi ser polícia. Larguei a corneta e fui correr atrás de bandido. Mas olha, eu nunca matei nem bati em ninguém. Só queria entrar pra polícia para ser polícia”. Não demorou, foi continuar o ofício de músico. Músico da polícia.  Aos sessenta anos, Ely percebeu que não bastava entrar para a polícia para ser polícia e agora faz ponto com seu táxi azul no Conjunto Nacional. Gosta das brincadeiras dos colegas que o chamam de “primo do Obama”, amparados na semelhança de Ely, registrada quando tinha  20 e poucos anos, e o presidente americano. O corneteiro de Médici adora fotos. Anda com um grande álbum na mala do táxi e guarda a enorme família na memória do celular. “Olha como era ela, tá assim agora. Continua bonita, ne?”, derrete-se mostrando a foto da mulher com quem é casado há 38 anos e tem cinco filhos e muitos netos.

De vez em quando, a Presidência convida Ely para participar do Sete de Setembro. Carrega uma bandeira junto à comitiva da guarda. Este ano não vai participar. “Vou trabalhar… Mas também eu não posso, me emociono muito com o Sete de Setembro. Não consigo ver o desfile sem chorar”, e chora… “Sabe aquela bandeira grande que tem perto da Praça dos Três Poderes? Eu toquei lá, em 19 de setembro de 1972, se não me engano, quando ela foi colocada lá. Um dia levei uma passageira e contei isso a ela e ela chorou. Oito anos, onze meses e oito dias, comportamento ótimo, faltando 22 dias para excepcional, não tendo sofrido nenhuma repreensão no referido período, assinado coronel José Moretti, comandante da Guarda Presidencial””.

Grife Bolsonaro de camisetas

O deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) faz de tudo para ser odiado. Quem o leva à sério e tem pouco contato com o trabalho político do parlamentar entra na pilha. Mas o pragmatismo de Bolsonaro não pode ser descartado. Ele encontrou no ódio a forma mais rápida e barata de se promover na mídia. Gostem ou não, Bolsonaro criou um nicho de atuação. Malandro carioca em trajes militares, sacou rápido que existe um grande eleitorado conservador no país. Há algum tempo, um cientista político explicava porque pessoas pobres votam em políticos do ex-PFL e, até mesmo, PSDB. O cientista explicava que muitas vezes os pobres se identificavam mais com o discurso de valorização e proteção da família muito comum entre os ruralistas e representantes do empresariado e preferiam essas doutrinas ao dito trabalhismo do PT e companhia. Acho que Bolsonaro também participou dessa aula. O discurso contra os direitos humanos do deputado casa perfeitamente com a opinião raivosa de um pai de família que chega em casa e liga a TV no noticiário. A imprensa que cobre polícia no Brasil não ajuda muito os cidadãos a pensarem a questão como Segurança Pública. Assim, bandidos e mocinhos seguem enfileirados e Bolsonaro amplia a cada dia sua coleção de camisetas.

O deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) faz de tudo para ser odiado. Quem o leva a sério e tem pouco contato com o trabalho político do parlamentar entra na pilha. Mas o pragmatismo de Bolsonaro não pode ser descartado. Ele encontrou no ódio a forma mais rápida e barata de se promover na mídia. Gostem ou não, Bolsonaro criou um nicho de atuação. Malandro carioca em trajes militares, Bolsonaro sacou rápido que existe um grande eleitorado conservador no país. De um cientista político renomado veio a explicação sobre o voto ideológico (em contraposição ao de cabresto) de pessoas pobres em políticos de direita e centrão em vez de preferirem partidos que se dizem de esquerda, representantes dos trabalhadores. O cientista ponderou que muitas vezes os pobres se identificavam mais com o discurso de valorização e proteção da família - muito comum entre os ruralistas e representantes do empresariado - e sentiam-se mais representados nessas doutrinas e tinham, até mesmo, certa aversão ao discurso vermelho dos partidos de esquerda. Acho que Bolsonaro também participou dessa aula. O discurso contra os direitos humanos do deputado casa perfeitamente com a opinião raivosa de um pai de família que chega em casa e liga a TV no noticiário. A imprensa que cobre polícia no Brasil não ajuda muito os cidadãos a pensarem a questão como Segurança Pública. Assim, bandidos e mocinhos seguem enfileirados e Bolsonaro amplia a cada dia sua coleção de camisetas. Essa aí ele dependurou há pouco tempo na frente de seu gabinete na Câmara, ao lado da já famosa foto de um cão com os dizeres: "Quem procura osso é cachorro", em alusão aos mortos na Guerrilha do Araguaia.

Revista em quadrinhos ensina crianças de Angra a fugir de acidente nuclear

 

revistinhasimulacaoacidentenuclearO governo brasileiro, pela Eletronuclear e Eletrobrás, editou revistinha em quadrinho simulando com personagens infantis um desastre nuclear na região de Angra dos Reis. Intitulado “Nós temos um plano” o texto diz às crianças que elas devem prestar atenção na sirene de emergência. Caso o sinal seja acionado, elas devem correr para casa e vedar as portas e não comer nenhum alimento que não seja enlatado. No desenho, todos os personagens estão sorridentes enquanto arrumam as coisas para fugir de casa. “Além da abrigagem pode existir outra forma de proteção, lembram qual é?”, pergunta o personagem chamado Zé Elétrico. As crianças respondem: “Claro, é a evacuação. Evacuação é ir embora?”, respondem as crianças sorrindo. O gibi manda deixar os bichos de estimação em casa e fugir só com a família. Para os pais que não têm carro, a revistinha explica que existem pontos de ônibus preparados para a fuga. É bem educativo, resta saber se é adequado para a idade. Se crianças de menos de 10 anos precisam viver em alerta, cientes do risco de um desastre nuclear.

Classificados: fazenda boa para invadir, 3 mil hect. Interessados do MST tratar aqui

Um engraçadinho aproveitou o espaço do mural do MST para oferecer a fazenda da família para invasão. E ainda deu o endereço.

Um engraçadinho aproveitou o espaço do mural do MST para oferecer a fazenda da família para invasão. Traduzindo o classificado do rapaz, ficaria mais ou menos assim: "Eu gostaria que o MST fosse para a fazenda da minha família. Fica em Minas Gerais, tem 3 mil hectares de terra muito boa que gera emprego só para duas famílias que não fazem nada na área. São 17 nascentes e 9 corrêgos, a terra é 100% tratorável". Encerra dando o endereço e email para contato. Vai saber.

Brasília em Minas

Canteiro de obras na divisa entre Belo Horizonte e Vespasiano em 11/05/09

Canteiro de obras da nova sede do Governo de Minas Gerais na divisa entre Belo Horizonte e Vespasiano em 11/05/2009

De tanto sonhar com o Planalto Central,  o governador Aécio Neves (PSDB) resolveu levar um pouco de Brasília para Minas Gerais. Ao custo de R$ 890 milhões,  o governo mineiro banca nova sede administrativa desenhada por Oscar Niemeyer.  As curvas das duas torres principais da construção já mudaram a paisagem das Minas Gerais. A obra anda a toque de caixa, quem desembarca em Confins e segue rumo ao Centro parece ter voltado à Brasília. O centro administrativo mineiro é uma cópia com sotaque do conjunto de prédios que reúne Executivo, Legislativo e Judiciário no Distrito Federal. A diferença principal é amaquetecentroadministrativogovernominasgerais localização. Enquanto em Brasília os pobres são empurrados para cidades satélites, em Minas o novo centro administrativo é cercado de bolsões de favelas. Bonito está ficando, mas quem vai sofrer para trabalhar são os 20 mil funcionários públicos do estado.  A sede do governo  vai ficar na divisa entre Belo Horizonte  e Vespasiano, a quase uma hora do Centro, contando com o trânsito. O governo alega que economizará R$ 25 milhões por mês em aluguel transferindo a estrutura do Estado. Entram as curvas de Niemeyer e sai a imponência histórica do Palácio da Liberdade.