Uma vez, um amigo também jornalista e também negro disse que Brasília deveria ser melhor para viver do que outras capitais, como Rio e São Paulo, pois aqui a política dos salários altos do funcionalismo provoca o fenômeno do negro bem remunerado, sem que isso esteja relacionado à ascensão de desportistas ou músicos. Os concursos públicos poderiam promover a tão aclamada meritocracia, assim, Brasília lidaria melhor com os negros inseridos no mercado de consumo. Concordei com esse meu amigo. Disse que em Brasília, principalmente na Esplanada dos Ministérios, é comum ver negros em cargos de chefia, engordando o contracheque com DAS e circulando pelas sodomas e gomorras do consumo de cabeça erguida. Acrescentei ainda, ao nosso debate, que em Brasília era possível alguém ser negro e ser observado pela sua comunidade como algum trabalhador da área intelectual, sem que isso parecesse uma aberração. Mas essa nossa conversa foi muito precipitada. Na quinta-feira, o secretário de Recursos Humanos do Ministério do Planejamento morreu, aos 56 anos, por falta de atendimento na rede hospitalar particular em Brasília. Eu sou muito contra a prática da “carteirada”, mas juro, se qualquer parente ou amigo estivesse morrendo graças à burocracia desse suposto país em desenvolvimento não me furtaria o direito de intimidar os burocratas. Mas parece que Duvanier Ferreira e sua família não fizeram isso. Ou se fizeram, os burocratas que ficam atrás dos balcões dos hospitais não acreditaram que aquele negro poderia pertencer ao governo federal, em posição de alto destaque. Quando vi a foto do integrante da cúpula do Ministério do Planejamento que morreu por falta de atendimento, a primeira ideia que veio à minha cabeça foi o critério raça. Como poderia ser diferente? Tenho muitos amigos brancos que dizem que não há racismo no Brasil. Nunca ouvi tal frase dos meus amigos negros. Por mais que nós ainda usemos as figuras alegóricas do Carnaval, da música negra, somos mais racistas do que qualquer país do mundo, pois não aceitamos e nem debatemos o nosso próprio racismo, alegando que somos uma pátria que convive com as diferenças, por isso somos tão especiais. Enquanto isso, o negro no Brasil ganha salário de negro e tratamento de negro. E agradeça, pra você isso está muito bom! E é muito bom ser negro, só não é bom ser tratado como negro, no Brasil.
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detalhe a parte… a foto do post é muito foda!!! vai fundo na raiz do racismo.
não sabe o autor Josie?!
Concordo que o sistema de saúde é péssimo no geral, tanto público como privado, mas o caso do Duvanier Ferreira ressalta também o racismo, como pode um secretário de Recursos Humanos do Ministério do Planejamento morrer por falta de atendimento ?!
Experienciei o racismo ao viajar com um amigo pela região sul do Brasil, em algumas cidades de colonização europeia ele era o único negro na cidade toda, muitos ficavam olhando. Em Blumenau não fomos atendidos por restaurante com o buffet ‘sirva-se’, o garçom falou que havia acabado o horário de refeição (era 14h15), ou seja, preferiu jogar tudo fora do que deixar dois turistas comer. Isso me vez perceber o que Josie comenta, estas nuances de racismo pelo Brasil é muito forte.
Pois é, Melina. Só quem é negro ou ama e convive com um negro vivencia o racismo. É absurdo esse seu relato de Blumenau. Um amigo passou por uma experiência parecida em um buffet da Daslu para a imprensa, os garçons não o atenderam porque ele era negro.
Quanto à foto, eu realmente “roubei” da internet. É uma inscrição histórica, falho em dizer o autor, mas não resisti e postei. Beijos!
Gustavo, vou subir seu comentário como post, espero que não se importe.
Obrigada e um beijo!
Isso é fato: quem reconhece o preconceito são aqueles que são vítimas dele. E a convivência igualitária entre diferentes etnias no Brasil é uma balela. O racismo está muito presente em qualquer esquina desse paía e o símbolo mais contundente dessa realidade é a negação da raça. Ainda é comum referir-se a um negro como moreno, queimado de sol, bronzeado e por aí vai. É repugnante ouvir isso de um branco, mas quando a referência é de um negro a respeito de si, a sensação é de tristeza profunda.
Mas no caso específico do Duvanier Ferreira, tenho minhas dúvidas se o racismo teve peso decisivo na negligência. O fato é que o atendimento de emergência nesse país é uma merda. Os atendentes em Prontos Socorros preocupam-se com apenas com burocracias imbecis. E todos sabem que a cobrança de cheque-caução para o atendimento continua sendo prática cotidiana, apesar de proibida. Faltam triagens que pudessem identificar um caso de dor torácica e encaminhar para atendimento imediato. Quando há triagem, antes deve-se passar no balcão para acertar os honorários, mas aí pode ser tarde demais. E mesmo depois de passar pela porta da sala de atendimento, nada garante que o atendimento será bom. A maior parte dos médicos que trabalham em emergência são jovens recém-formados, com pouca experiência para exercer uma atividade em que as decisões têm que ser tomadas em poucos minutos. Até hoje não está estabelecida no Brasil a especialidade de médico de emergência e não há formação específica para trabalhar na área, diferente de vários outros países.
Um outro problema que esse caso trágico ressalta é que faltam informações sobre a gravidade que representa o sintoma de dor ou desconforto no peito. As doenças cardiovasculares formam o grupo que representa a maior causa de morte no Brasil e deveríamos ter mais campanhas alertando a população (e os atendentes de prontos-socorros) sobre a necessidade de atendimento imediato diante de qualquer um dos sinais de alerta.