Replico aqui uma história solta que ouvi de um morador de rua, dentro do ônibus que faz a linha Rodoferroviária X Rodoviária do Plano Piloto, em uma tarde já considerada perdida. São trechos soltos, soltos como a mente do morador de rua. Ainda não descobri se o homem era um gênio ou se estava bêbado. Ele contava a história de um amigo: Ivan Gelado, um coveiro. O morador de rua usava histórias de Ivan Gelado para falar sobre o envelhecimento e a morte. Ele não falou comigo. Conversava sozinho, como quem tenta colocar as ideias no lugar, mas ouvi tudo e tomei notas:
“As pessoas agora acham que sou aberração
há alguns anos eu não era aberração
eu ando devagar, estou muchibado, mas respiro e penso
estou falando isso e lembrando do meu amigo
o Ivan Gelado, isso mesmo, Ivan Gelado
A gente chama ele de Gelado porque ele mexe com defunto o dia inteiro
(ri alto) ele pega nos defuntos e não tem medo, não
eu vou no cemitério tomar pinga com ele
e ele fala pra mim: a velhice é uma espécie de inexistência
O Ivan Gelado fala que velho e defunto é tudo uma coisa só pra sociedade
a gente fica velho e invisível, pro Ivan Gelado
Você tá ouvindo, todo mundo é só um corpo
e não importa se o corpo está vivo ou morto
importa é se esse corpo trabalha
porque é assim na sociedade, só tem valor quem faz dinheiro
não estou falando de ser garota ou garoto de programa, não
to falando daquilo que os comunistas falavam
da matéria, do material
eu li muitos livros, já trabalhei, já fui novo
agora como fala o Ivan Gelado, eu sou uma inexistência
a sociedade só deixa entrar nela alguns
eu já entrei, mas agora tô expulso”
Passaria uma tarde ouvindo as considerações de Ivan Gelado sobre a lógica utilitarista do corpo, associando suas palavras às pessoas da minha vida, que estão envelhecendo e me ensinando lições enquanto não chega o meu momento de “inexistência”. Ivan Gelado também me fez lembrar da duquesa de Alba, mulher de 85 anos que se casou com um homem 25 anos mais novo. Casamento por interesse? E se for? Só mais um para a história de conveniências que permeia a aristocracia. O que provoca a intolerância da sociedade é que a duquesa de Alba quebra a regra da inexistência, da invisibilidade, e questiona a cegueira da sociedade que tem na juventude um valor.
* Josie Jeronimo é jornalista , gosta de ouvir conversas alheias e acha a duquesa de Alba bonita aos 10, 20, 30, 40, 50 e 80.

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