Por Gustavo Arimatea*
Isso é fato: quem reconhece o preconceito são aqueles que são vítimas dele. E a convivência igualitária entre diferentes etnias no Brasil é uma balela. O racismo está muito presente em qualquer esquina desse país e o símbolo mais contundente dessa realidade é a negação da raça. Ainda é comum referir-se a um negro como moreno, queimado de sol, bronzeado e por aí vai. É repugnante ouvir isso de um branco, mas quando a referência é de um negro a respeito de si, a sensação é de tristeza profunda.
Mas no caso específico do Duvanier Ferreira, tenho minhas dúvidas se o racismo teve peso decisivo na negligência. O fato é que o atendimento de emergência nesse país é uma merda. Os atendentes em Prontos Socorros preocupam-se apenas com burocracias imbecis. E todos sabem que a cobrança de cheque-caução para o atendimento continua sendo prática cotidiana, apesar de proibida. Faltam triagens que pudessem identificar um caso de dor torácica e encaminhar para atendimento imediato. Quando há triagem, antes deve-se passar no balcão para acertar os honorários, mas aí pode ser tarde demais. E mesmo depois de passar pela porta da sala de atendimento, nada garante que o atendimento será bom. A maior parte dos médicos que trabalha em emergência são jovens recém-formados, com pouca experiência para exercer uma atividade em que as decisões têm que ser tomadas em poucos minutos. Até hoje não está estabelecida no Brasil a especialidade de médico de emergência e não há formação específica para trabalhar na área, diferente de vários outros países.
Um outro problema que esse caso trágico ressalta é que faltam informações sobre a gravidade que representa o sintoma de dor ou desconforto no peito. As doenças cardiovasculares formam o grupo que representa a maior causa de morte no Brasil e deveríamos ter mais campanhas alertando a população (e os atendentes de prontos-socorros) sobre a necessidade de atendimento imediato diante de qualquer um dos sinais de alerta.
* Gustavo Arimateia é médico e na minha opinião poderia ser um excelente jornalista, mas como é inteligente, especializa-se em nefrologia







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