Racismo, preconceito e os gargalos da Saúde

22 jan

Por Gustavo Arimatea*

Isso é fato: quem reconhece o preconceito são aqueles que são vítimas dele. E a convivência igualitária entre diferentes etnias no Brasil é uma balela. O racismo está muito presente em qualquer esquina desse país e o símbolo mais contundente dessa realidade é a negação da raça. Ainda é comum referir-se a um negro como moreno, queimado de sol, bronzeado e por aí vai. É repugnante ouvir isso de um branco, mas quando a referência é de um negro a respeito de si, a sensação é de tristeza profunda.
Mas no caso específico do Duvanier Ferreira, tenho minhas dúvidas se o racismo teve peso decisivo na negligência. O fato é que o atendimento de emergência nesse país é uma merda. Os atendentes em Prontos Socorros preocupam-se apenas com burocracias imbecis. E todos sabem que a cobrança de cheque-caução para o atendimento continua sendo prática cotidiana, apesar de proibida. Faltam triagens que pudessem identificar um caso de dor torácica e encaminhar para atendimento imediato. Quando há triagem, antes deve-se passar no balcão para acertar os honorários, mas aí pode ser tarde demais. E mesmo depois de passar pela porta da sala de atendimento, nada garante que o atendimento será bom. A maior parte dos médicos que trabalha em emergência são jovens recém-formados, com pouca experiência para exercer uma atividade em que as decisões têm que ser tomadas em poucos minutos. Até hoje não está estabelecida no Brasil a especialidade de médico de emergência e não há formação específica para trabalhar na área, diferente de vários outros países.
Um outro problema que esse caso trágico ressalta é que faltam informações sobre a gravidade que representa o sintoma de dor ou desconforto no peito. As doenças cardiovasculares formam o grupo que representa a maior causa de morte no Brasil e deveríamos ter mais campanhas alertando a população (e os atendentes de prontos-socorros) sobre a necessidade de atendimento imediato diante de qualquer um dos sinais de alerta.

* Gustavo Arimateia é médico e na minha opinião poderia ser um excelente jornalista, mas como é inteligente, especializa-se em nefrologia

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O pior racismo mora no Brasil

21 jan

Uma vez, um amigo também jornalista e também negro disse que Brasília deveria ser melhor para viver do que outras capitais, como Rio e São Paulo, pois aqui a política dos salários altos do funcionalismo provoca o fenômeno do negro bem remunerado, sem que isso esteja relacionado à ascensão de desportistas ou músicos. Os concursos públicos poderiam promover a tão aclamada meritocracia, assim, Brasília lidaria melhor com os negros inseridos no mercado de consumo. Concordei com esse meu amigo. Disse que em Brasília, principalmente na Esplanada dos Ministérios, é comum ver negros em cargos de chefia, engordando o contracheque com DAS e circulando pelas sodomas e gomorras do consumo de cabeça erguida. Acrescentei ainda, ao nosso debate, que em Brasília era possível alguém ser negro e ser observado pela sua comunidade como algum trabalhador da área intelectual, sem que isso parecesse uma aberração. Mas essa nossa conversa foi muito precipitada. Na quinta-feira, o secretário de Recursos Humanos do Ministério do Planejamento morreu, aos 56 anos, por falta de atendimento na rede hospitalar particular em Brasília. Eu sou muito contra a prática da “carteirada”, mas juro, se qualquer parente ou amigo estivesse morrendo graças à burocracia desse suposto país em desenvolvimento não me furtaria o direito de intimidar os burocratas. Mas parece que Duvanier Ferreira e sua família não fizeram isso. Ou se fizeram, os burocratas que ficam atrás dos balcões dos hospitais não acreditaram que aquele negro poderia pertencer ao governo federal, em posição de alto destaque. Quando vi a foto do integrante da cúpula do Ministério do Planejamento que morreu por falta de atendimento, a primeira ideia que veio à minha cabeça foi o critério raça. Como poderia ser diferente? Tenho muitos amigos brancos que dizem que não há racismo no Brasil. Nunca ouvi tal frase dos meus amigos negros. Por mais que nós ainda usemos as figuras alegóricas do Carnaval, da música negra, somos mais racistas do que qualquer país do mundo, pois não aceitamos e nem debatemos o nosso próprio racismo, alegando que somos uma pátria que convive com as diferenças, por isso somos tão especiais. Enquanto isso, o negro no Brasil ganha salário de negro e tratamento de negro. E agradeça, pra você isso está muito bom! E é muito bom ser negro, só não é bom ser tratado como negro, no Brasil.

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Boa noite, meu nome é Larissa, sou atriz.

20 jan

Larissa Leite

 

Adoro quando fico só,

quando todos os cômodos da casa estão prontos a me receber

e as paredes ganham curvas, texturas, olhares.

Caminho descalça pela casa e espero que ela me sugira o que fazer.

Porque sozinha, sou enorme.

Não caibo no canto do sofá.

Quando tenho coragem de ficar assim,

no silêncio da meia-luz, vibra uma festa em mim.

Vozes espetaculares soam,

personagens clamam,

já não estou só.

Sou um povoado onde a vida é rebuliço

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Soberania

4 jan

Manoel de Barros

Naquele dia, no meio do jantar, eu contei que
tentara pegar na bunda do vento — mas o rabo
do vento escorregava muito e eu não consegui
pegar. Eu teria sete anos. A mãe fez um sorriso
carinhoso para mim e não disse nada. Meus irmãos
deram gaitadas me gozando. O pai ficou preocupado
e disse que eu tivera um vareio da imaginação.
Mas que esses vareios acabariam com os estudos.
E me mandou estudar em livros. Eu vim. E logo li
alguns tomos havidos na biblioteca do colégio.
E dei de estudar pra frente. Aprendi a teoria
das idéias e da razão pura. Especulei filósofos
e até cheguei aos eruditos. Aos homens de grande
saber. Achei que os eruditos nas suas altas
abstrações se esqueciam das coisas simples da
terra. Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo
— o Alberto Einstein). Que me ensinou esta frase:
A imaginação é mais importante do que o saber.
Fiquei alcandorado! E fiz uma brincadeira. Botei
um pouco de inocência na erudição. Deu certo. Meu
olho começou a ver de novo as pobres coisas do
chão mijadas de orvalho. E vi as borboletas. E
meditei sobre as borboletas. Vi que elas dominam
o mais leve sem precisar de ter motor nenhum no
corpo. (Essa engenharia de Deus!) E vi que elas
podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as
próprias asas. E vi que o homem não tem soberania
nem pra ser um bentevi.

Ou seja, aproveite!

31 dez

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Do sempre mineiro e barroco…

18 dez

Maurício Santini

Eu tenho uma personalidade barroca.
Combino muito mais com as montanhas férreas das Gerais, com os pórticos de pedra-sabão, com o vapor lúdico da Maria Fumaça.
Com o lirismo poético de um Dirceu em busca de um sonho de amor com Marília.
Com a vista da sacada para a Igreja de São Francisco.
Com o pão de queijo de fim de tarde. Com o queijo meia cura do começo do dia.

Não sou afeito à fumaça que sobe apagando as estrelas.
Não gosto do estilo yuppie elitista de São Paulo, da sua vida de shoppings, das suas tardes insossas, sem praias e sem montanhas.

Sou do Ipiranga, me escondo nos jardins do Museu.

Rechaço o madamismo, a peruagem pretensiosa das paulistanas.
O ogrismo dos seus machinhos com camiseta regata.
Torço o nariz para os seus automóveis de luxo.
Dou de ombros às suas baladas energéticas, às suas madrugadas vazias e cheias de gente.
À sua arrogante liderança.

A água não tem para onde escorrer e causa cheias.
Eu não consigo ver o horizonte.
O céu está sempre cinza, mesmo no tempo bom.
E as pessoas não se encontram.

Aqui, onde eu me encontro estou perdido.

 

Para Miguel Arcanjo Prado, sempre mineiro e barroco, como os bons mineiros sabem ser.

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Nicolas Behr mode on (ou, pô, CCBB de Brasília!)

9 dez

Não dou sorte com o CCBB de Brasília. Ou o CCBB da Capital é MUITO ruim ou sua versão fluminense está à frente dos padrões nacionais de entretenimento cultural e estou fazendo uma comparação injusta. No Rio de Janeiro, um dos espaços que eu mais amava era o Centro Cultural do Banco do Brasil. Como era bom cruzar a avenida Rio Branco e entrar na Primeiro de Março para aproveitar as exposições naquele prédio magnífico.

Foto do CCBB do Rio de Janeiro, retirada do blog Dicas Aleatórias

Era impossível passar menos de três horas nas galerias. Artes plásticas, instalações de homenagens a grandes criadores, espaços interativos, tudo isso regado à vivacidade dos visitantes que lotam o espaço. Jovens secundaristas (que matavam aula no CCBB), estudantes das Belas Artes, grandes famílias com crianças animadas e todo tipo de tribo que uma cidade de verdade abriga. Em Brasília, o CCBB não tem vida. Já ocorreu de em um fim de semana o espaço não ter nenhuma exposição aberta ao público. Relevei, pensei ser azar, mas a recorrência da fraca programação e a falta de criatividade dos curadores chega a ser irritante. Atualmente, o CCBB de Brasília apresenta a exposição da gravurista Maria Bonomi. Oba! Adoro gravura, bora para o CCBB. Mais uma decepção. A falta de cuidado da curadoria com a obra da artista chega a ser desrespeitosa, seguem registros:

O verso das fichas técnicas foi forrado com papel jornal (todosPasmos#) e o arremedo ainda “briga” com o quadro que está no lado contrário de um dos corredores!

Em uma instalação belíssima (Dança das Facas, de 2003) que traz a poética da luta pela terra, os responsáveis pela mostra deixaram a parede suja e pregaram adesivo com a mesma cor do fundo (ou seja, ilegível) para orientar os (sofridos) visitantes sobre a data e título da obra.

Os responsáveis pelo CCBB de Brasília precisam visitar o CCBB do Rio para aprender a dar vida a um espaço. O centro da capital fluminense atrai pessoas de todas as idades e classes sociais. A curadoria das exposições tem o cuidado de pensar a luz e a trilha incidental para dialogar com as obras de arte. A interatividade também é indispensável. Em exposições musicais o centro costumava deixar instrumentos ligados à disposição dos visitantes que soubessem tocar,  o que sempre gerava apresentações de improviso, tornando mais viva a experiência de percorrer os corredores do CCBB Rio. É uma vergonha um espaço como o CCBB de Brasília ser tão mal aproveitado.

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Considerações de Ivan Gelado

5 dez

              

Replico aqui uma história solta que ouvi de um morador de rua, dentro do ônibus que faz a linha Rodoferroviária X Rodoviária do Plano Piloto, em uma tarde já considerada perdida. São trechos soltos, soltos como a mente do morador de rua. Ainda não descobri se o homem era um gênio ou se estava bêbado. Ele contava a história de um amigo: Ivan Gelado, um coveiro. O morador de rua usava histórias de Ivan Gelado para falar sobre o envelhecimento e a morte.  Ele não falou comigo. Conversava sozinho, como quem tenta colocar as ideias no lugar, mas ouvi tudo e tomei notas:

“As pessoas agora acham que sou aberração

há alguns anos eu não era aberração

eu ando devagar, estou muchibado, mas respiro e penso

estou falando isso e lembrando do meu amigo

o Ivan Gelado, isso mesmo, Ivan Gelado

A gente chama ele de Gelado porque ele mexe com defunto o dia inteiro

(ri alto) ele pega nos defuntos e não tem medo, não

eu vou no cemitério tomar pinga com ele

e ele fala pra mim: a velhice é uma espécie de inexistência

O Ivan Gelado fala que velho e defunto é tudo uma coisa só pra sociedade

a gente fica velho e invisível, pro Ivan Gelado

Você tá ouvindo, todo mundo é só um corpo

e não importa se o corpo está vivo ou morto

importa é se esse corpo trabalha

porque é assim na sociedade, só tem valor quem faz dinheiro

não estou falando de ser garota ou garoto de programa, não

to falando daquilo que os comunistas falavam

da matéria, do material

eu li muitos livros, já trabalhei, já fui novo

agora como fala o Ivan Gelado, eu sou uma inexistência

a sociedade só deixa entrar nela alguns

eu já entrei, mas agora tô expulso”

Passaria uma tarde ouvindo as considerações de Ivan Gelado sobre a lógica utilitarista do corpo, associando suas palavras às pessoas da minha vida, que estão envelhecendo e me ensinando lições enquanto não chega o meu momento de “inexistência”. Ivan Gelado também me fez lembrar da duquesa de Alba, mulher de 85 anos que se casou com um homem 25 anos mais novo. Casamento por interesse? E se for? Só mais um para a história de conveniências que permeia a aristocracia. O que provoca a intolerância da sociedade é que a duquesa de Alba quebra a regra da inexistência, da invisibilidade, e questiona a cegueira da sociedade que tem na juventude um valor.

* Josie Jeronimo é jornalista , gosta de ouvir conversas alheias e acha a duquesa de Alba bonita aos 10, 20, 30, 40, 50 e 80.

A universidade é um enclave

9 nov

Bando de maconheiros que querem a polícia fora do campus para fumar livremente. Fácil assim, pessoas que não tiveram a sorte de vivenciar (ou não valorizaram) a experiência das grandes instituições de ensino brasileiras se apressam em julgar a invasão da USP. A nova geração de uspianos deu a cara para bater em protesto contra a solução fácil de entregar a segurança do campus a um aparato de segurança que ainda carrega na farda manchas de sangue de uma antiga leva de universitários, que não aceitava as armas ditando o rumo do país. Pode parecer pequeno para os yuppies que tratam um diploma como um adereço de parede. A vivência universitária é o primeiro passo para a seara das ideias, caminho que ensina a mente a trabalhar com conceitos, enterrando pré-conceitos. Um campus é antes de tudo um território das letras, da liberdade. É um enclave onde as regras e modus operandi da sociedade são analisados e questionados. Se não há liberdade na universidade, ela sequer existirá nas palavras de filósofos, sociólogos ou antropólogos formados pelas instituições de ensino brasileiras. Não temos uma polícia cidadã, uma polícia com respaldo social para apontar o dedo na cara de quem quer que seja, para fazer valer dentro de uma universidade regras que não consegue controlar em nenhuma outra área. Nossa polícia está sub judice, ainda precisa provar sua inocência para a sociedade dizer se a absolve ou não. E grande parte dos juízes que decidirão isso serão cientistas sociais dos bancos da USP. Em todas as reportagens que registram (e reprovam) a revolta dos estudantes contra a invasão policial na USP, os alunos que criticam os colegas são estudantes que se dão ao luxo de se preocupar apenas com o lado “prático” da vida. Diferentemente da matemática e da física, em sociedade seguir as regras impostas nem sempre é a forma de conseguir a resposta certa. Falta de segurança não é argumento para dar à polícia as chaves da maior universidade do país. Monitoramento de quem entra e sai do campus e garantia de vida e bem estar dos alunos é responsabilidade da administração da universidade, que conta com um gordo orçamento para isso. Polícia é o Estado com armas. E ainda está muito vivo na memória dos brasileiros a última vez que o Estado entrou nas universidades, para matar e torturar quem se opôs a ele. É uma pena que o máximo de rebeldia que essa nova geração consegue ostentar é um cigarro de maconha. Mas o cigarro de maconha da USP é o panfleto anti-militar de décadas atrás. E dos portões da universidade para dentro, toda rebeldia é bem vinda, polícia e bandidos não.

Josie Jeronimo é jornalista, nunca fumou maconha e lamenta que as forças repressivas do Estado ainda estejam no front oposto

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Belo belo

21 out

Manuel Bandeira

Belo belo minha bela
Tenho tudo que não quero
Não tenho nada que quero
Não quero óculos nem tosse
Nem obrigação de voto
Quero quero
Quero a solidão dos píncaros
A água da fonte escondida
A rosa que floresceu
Sobre a escarpa inacessível
A luz da primeira estrela
Piscando no lusco-fusco
Quero quero
Quero dar a volta ao mundo
Só num navio de vela
Quero rever Pernambuco
Quero ver Bagdá e Cusco
Quero quero
Quero o moreno de Estela
Quero a brancura de Elisa
Quero a saliva de Bela
Quero as sardas de Adalgisa
Quero quero tanta coisa
Belo belo
Mas basta de lero-lero
Vida noves fora zero.

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